Aproxima-se a festa de Corpus Christi.

Dom Estevam dos Santos Silva Filho

Bispo Auxiliar de São Salvador da Bahia

Na Solenidade de Corpus Christi no ano de 2011, na Paróquia Nossa Senhora das Candeias (Vitória da Conquista), onde dediquei-me como pároco, logo após a comunhão iniciamos a solene procissão. Fomos com o Santíssimo Sacramento em um carro devidamente preparado e ornamentado para  este precioso trajeto, com faróis de dezenas de automóveis piscando, tocando as buzinas e com potente carro de som.

No veículo coberto com um formoso tecido chamado pálio, segurava sobre a mesa ornamentada o ostensório com  o Santíssimo Corpo do Senhor.  Fiquei o mais discreto possível para que as vestes e capas brilhosas que eu estava paramentado não ofuscassem  o esplendor da simplicidade de Jesus Cristo, que estava na aparência de Pão. Fiquei também recolhido, confesso, pois na avenida mais movimentada da cidade sentia-me um tanto tímido e preocupado de como seria a recepção daquela procissão.

A mesa era larga e na ponta um refletor para iluminar Jesus Cristo, o “grande Sol”. Era preciso esticar bem os braços, porque eu teria que segurar firme o Senhor. Ao passar por quase toda paróquia (prédios, shopping, condomínios, faculdades, academias, colégios, clubes etc.),  percebi que na verdade não era eu quem  segurava e levava o Senhor, mas era Ele quem, puxando meus braços e minhas mãos, nos  conduzia   para que conhecêssemos  melhor  aquele  populoso campo de missão.

Pude compreender a novidade que o Cristo me mostrava: prédios populosos com poucas janelas e lâmpadas acesas, também algumas casas com luzes apagadas. Entretanto vi iluminação e pessoas curiosas  procurando entender aquela expressão pública. Desta maneira, olhares iam se dirigindo em direção ao Santíssimo que ia passando e abençoando a todos.

Pessoas durante a passagem do Santíssimo faziam o sinal da cruz, algumas olhavam discretamente. Não houve sinal de desrespeito, no máximo uma displicência. Muitos não sabiam como se comportar diante do sagrado, eram pessoas batizadas e abandonadas pela igreja matriz que saíam de bares e clubes dezenas delas emocionadas.

Ao chegar ao destino final, capela das Irmãs Sacramentinas,  tapete e sineta  somaram-se  a caminhada até o Tabernáculo. Em seguida todos receberam a bênção do Santíssimo. Parecíamos escutar Cristo Eucarístico dizendo-nos: “Esta bênção chega aos ausentes, que também são minhas ovelhas! Um dia meus discípulos  abrirão os olhos para a missão,  entenderão  que a ordem querida e sonhada por mim foi: TOMAI TODOS e COMEI (Cf Mc 14, 22s),  e por isso não me deixarão preso aos mesmos devotos…”

Até hoje guardo o recado do Senhor, que nos  levou pelas ruas e avenidas daquele bairro  e chamou a todos de amigos, dando-nos  a conhecer a imensidão de nossa missão… Vamos retornar à avenida levando ao menos o Pão da Palavra? É para lá que Cristo se dirige! Foi pelas ruas que Ele, nos puxando pelas mãos, nos mostrou a cidade e nos questionou sobre a missão. Vamos agora levá-lo ao povo da urbi, pois não foram eles que se afastaram da Igreja, mas a Igreja que se afastou dos que estavam ausentes…

Fonte: Arquidiocesesalvador.org.br